sábado, 31 de janeiro de 2015

EXCLUSIVO: Nas Ilhas Virgens, nosso enviado conta como funcionava a empresa de fachada da Globo

O "endereço" da "Empire": empresa da Globo nunca funcionou aqui

O “endereço” da “Empire” nas Ilhas Virgens: empresa “era só no papel”, diz advogado
Em uma nova reportagem da série sobre a compra dos direitos da Copa do Mundo de 2002 pela Globo, o jornalista Joaquim de Carvalho foi às Ilhas Virgens contar in loco como funcionava a empresa de fachada. Joaquim esteve no paraíso fiscal e visitou a suposta sede. As demais matérias podem ser encontradas aqui. 
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O dia amanhece com galos cantando em pleno centro de Road Town, capital das Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe, onde, em 2001, a Rede Globo comprou uma empresa por cerca de 220 milhões de dólares. O que poderia haver de tão valioso no Caribe para que a Rede Globo fizesse um investimento deste porte?

O esconderijo para um tesouro é a resposta mais apropriada. Exatamente como no tempo dos piratas, que por sinal fizeram história por aqui, como o lendário Barba Negra. E para piratas no passado, assim como para sonegadores de impostos, corruptos, traficantes de drogas e de armas no presente, o melhor lugar do mundo é onde se pode guardar a riqueza ilícita longe dos olhos das autoridades. Um paraíso. Isso é Ilhas Virgens.

Quem conhece bem os meandros deste paraíso fiscal é o advogado brasileiro Marcelo Ruiz, que desde 2011 trabalha para um escritório de recuperação de ativos instalado no centro financeiro de Road Town. Seu trabalho é descobrir quem está por trás das empresas abertas no país, que integra a Coroa Britânica, e repassar os dados para os escritórios das nações onde correm processos — Cayman, Suíça ou Brasil, por exemplo.

Ele, evidentemente, não trabalha sozinho. Além dos advogados de todos os continentes que dividem com ele um andar inteiro no edifício Fleming House, onde está uma das maiores empresas de telefonia móvel do país, a Lime, ele trabalha com a Kroll e outras empresas de investigação formada por ex-agentes da CIA, Scotland Yard e FBI.

“Essas empresas trabalham para a gente como suporte. Mas quem repatria são os advogados”, diz. Tudo com base na lei. No passado, era quase impossível chegar aos crimiminosos. Mas a justiça no mundo inteiro tem reconhecido o direito da vítima de identificar seus algozes e reparar o dano, inclusive o financeiro – caso de acionista lesado, ex-esposa passada para trás na partilha e nós, o povo, no caso da sonegação ou da corrupção.

“Havendo um processo judicial, mesmo que em outro país, a justiça reconhece o direito de quebrar o sigilo da empresa sob sua jurisdição”, explica Marcelo.

Foi assim que escritórios parceiros da banca onde Marcelo trabalha repatriaram o dinheiro da corrupção no caso do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, e do ex-prefeito Paulo Maluf, de São Paulo.

Marcelo não entra em detalhes por conta de cláusulas de confidencialidade, mas admite que seu escritório trabalhou no caso em que Ricardo Teixeira foi acusado de receber propina para favorecer emissoras de telvisão na venda dos direitos de transmissão da Copa do Mundo. O suborno foi depositado numa conta de empresa aberta nas Ilhas Virgens Britânicas. Ricardo Teixeira fez acordo com a Justiça na Suíça, sede da Fifa, pagou multa milionária e se safou de uma condenação. Mas teve que se afastar do futebol profissional, e vive num autoexílio na Flórida, Estados Unidos.

Road Town não é a única coincidência que une a Globo a Ricardo Teixeira. Assim como o ex-presidente da CBF e dirigente da Fifa, a Globo também buscou refúgio naquele paraíso fiscal. Em junho de 1999, através de outra empresa offshore, a Globo abriu a Empire Investment Group Ltd., com capital de aproximadamente 220 milhões de dólares.

Em 2001, a Globo comprou, através de sua matriz brasileira, a mesma empresa. Informou ao Fisco que buscava expansão no mercado internscional de TV, e omitiu o fato de que a empresa já era dela. Mais tarde, quando investigou a Globo, a Receita Federal descobriu a fraude.

O auditor fiscal Alberto Zile escreveu: “As operações arroladas dão a clara ideia de que vários atos praticados pela fiscalizada estavam completamente dissociados de uma racional organização empresarial e, consequentemente, de que a aquisição da sociedade empresarial nas Ilhas Virgens Britânicas foi apenas um disfarce de uma aquisição dos direitos de transmissão,  por meio de televisão, da competição desportiva de futebol internacional, com intuito de fugir da tributação”.


A Empire era titular dos direitos de transmissão, comprados por outra offshore da Globo junto a uma intemediária da Fifa, a ISL. A Empire, apesar de possuir um bem tão valioso como o direito de transmissão da Copa do Mundo, funcionava sem sede própria nas Ilhas Virgens.

A Empire dividia o mesmo endereço da Ernst & Young Trust Corporation, com a qual compartilhava também a caixa postal. “Com essas informações, não resta dúvida, a Empire era só papel, não tinha atividade nenhuma”, diz o advogado brasileiro que trabalha em Road Town desvendando o que há por trás das offshores.

Quando cheguei a Road Town, através de um barco que faz a travessia de Saint Thomas, nas Ilhas Virgens Americanas, onde tem um aeroporto maior, fui procurar a Empire. “Nunca ouvi falar”, disse o funcionário de uma empresa de informática no térreo do prédio onde funcionava a Ernst & Young.
“Já prestei serviço para muitas empresas daqui, mas nunca soube que existisse essa empresa Empire. Duzentos e vinte milhões de dólares? É muito dinheiro…”, comenta o taxista Roy George, um dos poucos que aceitam se identificar num assunto “muito delicado”, como observa o dono de uma empresa vizinha da Empire.

A Ernst & Young dividia a mesma caixa postal com a Empire

A Ernst & Young dividia a mesma caixa postal com a Empire

Os documentos de fundação da Empire trazem apenas a assinatura de uma procuradora autorizada, Nancy E. A. Grant, e de uma testemunha, Hellen Gunn Sullivan. Eu procurei as duas, primeiro no antigo escritório da Ernst & Young, no Jayla Place. “Eles se mudaram”, informou a gerente da Appleby, empresa que também administra offshore (legal, como informa em seu site), que agora ocupa a metade do terceiro andar do edifício antes sede da EY.

A Ernest & Young foi para outro endereço, mais distante do centro, no luxuoso prédio Ritter House, ao lado da marina The Moorings. “Não conheço nenhuma delas”, diz a advogada que nasceu em Santo Domingo, República Dominicana, que me atendeu em pé, na recepção do escritório. Ao ser informada do assunto, fez questão de esclarecer: «Em Road Town, não administramos mais offshore. Somos uma empresa de contabilidade.»

É um fato. A EY transferiu todas as suas atividades de trust (administração por relação de confiança) para as Bahamas, e vendeu seus ativos (as empresas de papel) para a Tricor, que funciona no prédio do First Caribbean Bank. Carol, a gerente inglesa da Tricor,  demonstrou incômodo quando me apresentei como jornalista brsileiro.

“O que você faz aqui?”, questionou, para em seguida dizer que Nancy, a procuradora da Empire (leia-se Globo), era sua antecessora na gerência da empresa. “Ela voltou para a Inglaterra, mas mesmo que estivesse aqui não poderia dar informação. Essas informações são fechadas”, disse.
Certamente, ela não sabe que a propriedade da Empire deixou de ser segredo quando o auditor Alberto Zile, a partir de uma denúncia vinda do exterior, vasculhou os documentos da Globo e descobriu que a Empire foi criada pela própria empresa brasileira. Segundo a Receita, o objetivo era sonegar impostos, o mesmo objetivo de milhares de empresas que se instalam por aqui.

Nas Ilhas Virgens Britânicas, os agentes fiduciários silenciam, mas o galo canta por toda parte, e é comum ver galinhas e pintinhos pelas praças e ao redor das mesas dos restaurantes à espera de que alguém jogue comida. É que a ave vive livre como os pombos no Brasil, embora os moradores gostem da carne no prato. Mas comem apenas o que compram no supermercado.

“Muitos séculos atrás, os espanhóis trouxeram as galinhas, e elas foram crescendo, crescendo, e nós gostamos de vê-las por aí”, conta o taxista Roy George, que tem curso superior. O filipino Gilberto Fabian se surpreendeu quando chegou ao país para trabalhar um ano atrás e viu tantas galinhas pela rua. “Em Manila, não ficava uma viva. O povo lá tem fome”, afirma

As Ilhas Virgens Britânicas têm uma das rendas per capita mais altas do mundo — quase 40 mil dólares por ano, salário mínimo de 2 500 dólares –, graças a uma economia impulsionada pela natureza bela e exuberante e ao suporte nos negócios financeiros. O segredo é a razão do sucesso do mercado financeiro.

Empresas instaladas aqui pagam taxas anuais, que garantem boa receita ao governo, mas não são nada se comparado ao que pagariam de impostos em seus países de origem. Este é um dos motivos da instalação de mais de quinhentas mil empresas, o dobro do número de habitantes.

Existem empresas que se instalam em Road Town, ainda que só existam no papel, e agem dentro da lei em seus países de origens, mas para a Receita Federal não foi este o caso da Globo. Não foram também as praias de água cristalina nem a floresta verde esmeralda que a fizeram aportar por aqui. Ilhas Virgens Britânicas se apresentam como Nature’s Little Secrets. Ou Segredinhos da Natureza. É um slogan que explica alguma coisa.

Um país cujo slogan apropriado é "Segredinhos da Natureza"
Um país cujo slogan apropriado é “Segredinhos da Natureza”
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Sobre o Autor
Jornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquim.gil@ig.com.br

 http://www.diariodocentrodomundo.com.br/exclusivo-nas-ilhas-virgens-nosso-enviado-conta-como-funcionava-a-empresa-de-fachada-da-globo/

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Bidone, Casablanca, Dolce Vita: as operações que estão na raiz da Lava Jato


 
Por Fábio Serapião
 
Na CartaCapital
As denúncias contra Nestor Cerveró, ex-diretor da Área Internacional da Petrobras, e Fernando Baiano, apontado como lobista a serviço do PMDB, encerraram os trabalhos da Operação Lava Jato este ano. A nova leva de arrolados pelo Ministério Público, composta basicamente de políticos envolvidos no escândalo, deve começar a pipocar em fevereiro, conforme deu a entender Rodrigo Janot, procurador-geral da República. O primeiro trimestre de 2015 assistirá, portanto, à fase mais aguda de uma investigação iniciada em 2008, a partir de um pequeno caso em Londrina, no Paraná.
Naquele ano, baseada em uma série de denúncias do empresário Hermes Magnus, a Polícia Federal instaurou um inquérito para investigar a utilização do empreendimento Dunel Indústria e Comércio como fachada para a lavagem de dinheiro proveniente dos desvios praticados pelo deputado José Janene, do Partido Progressista. Mesmo após a morte do parlamentar, em 2010, a apuração prosseguiu e chegou ao doleiro Carlos Habib Chater, cuja rede de lavandeira, localizada em Brasília, deu nome ao que viria a ser uma das maiores operações contra a corrupção da história do País: a Lava Jato.
Magnus sentia-se prejudicado pelo sócio Janene e temia represálias por ter descoberto a função espúria de sua empresa no esquema de lavagem patrocinado pelo ex-deputado e seus comparsas. Com base no depoimento do empresário e em outras provas colhidas preliminarmente, a Polícia Federal solicitou a quebra do sigilo telefônico de Chater e de seus funcionários do Posto da Torre. O resultado das interceptações foi a descoberta de uma intrincada rede de doleiros responsável por reciclar perto de 10 bilhões de reais por meio de empresas de fachada. Surpresos com os personagens do esquema criminoso, os delegados encontraram no cinema os nomes dos novos inquéritos instaurados para cada um dos núcleos de doleiros mapeados.
No cinema norte-americano, os policiais inspiraram-se no clássico do diretor Michael Curtiz e batizaram de Casablanca o grupo comandado pelo conhecido doleiro Raul Henrique Srour. Preso em 2006 durante os desdobramentos da Operação Farol da Colina, Srour e suas atividades ilícitas foram descobertos graças às ligações com a autointitulada “última dama do mercado”, a doleira Nelma Kodama. Os dois utilizavam a Tov Corretora de Câmbio e Valores.

O nome da operação cujo alvo era Kodama, detida ao tentar embarcar para Roma com 200 mil dólares escondidos nas roupas íntimas, saiu do acervo do cineasta italiano Federico Fellini. Batizada de Dolce Vita, a investigação contra a “Greta Garbo” do mercado negro de dólar, por sua vez, origina-se de outro inquérito nominado em homenagem a Fellini. Focada no doleiro Alberto Youssef e em suas empresas de fachada, a Bidone é a matriz da investigação cujo resultado foi o desmantelamento do cartel de empreiteiras que teriam atuado entre 2004 e 2014 na Petrobras.
Enquanto as outras frentes seguiam com suas diligências em busca de provas materiais dos crimes praticados pelos núcleos de doleiros, a Bidone era tratada com carinho especial pelos investigadores. O motivo fica claro em um apontamento da PF no pedido de busca e apreensão contra indivíduos ligados a Habib Chater. “Nelma Penasso, Raul Henrique Srour e Alberto Youssef são figuras conhecidas do mercado de câmbio, sendo Youssef o protagonista do que se convencionou chamar de Caso Banestado, sendo considerado o maior doleiro do Brasil.”
Desaparecido do noticiário policial desde a assinatura do seu primeiro acordo de delação premiada, em 2004, Youssef pagara a pena de sete anos no regime semiaberto por ter movimentado boa parte dos 30 bilhões de reais enviados ao exterior via contas CC5 do banco estadual do Paraná, o Banestado. Para as autoridades, entre elas o juiz federal Sergio Moro, responsável por homologar a delação na qual Youssef entregou os maiores operadores de câmbio em atuação no País, o doleiro havia cumprido o acordo de não mais delinquir e levava uma vida tranquila na capital paulista. A realidade não era essa.

Pouco tempo depois de iniciar o acompanhamento das comunicações do doleiro, os investigadores perceberam que, além de ainda operar transações de dólar-cabo, Youssef transformara-se em um influente lobista. A morte de seu padrinho político, o deputado Janene, o elevara ao posto de operador do Partido Progressista nas principais construtoras. Sua atuação extrapolava o mercado negro e alcançava o setor de infraestrutura, energia e medicamentos. Em todos os casos com tentáculos em órgãos públicos e licitações milionárias.
Os primeiros indícios foram amealhados com o surgimento do empresário Márcio Bonilho, da Sanko-Sider, como interlocutor constante em conversas telefônicas e mensagens via Blackberry Messenger. Não bastasse, ao longo de 2013, as interceptações apontaram uma intensa movimentação financeira patrocinada por Youssef por meio de suas empresas de fachada, em especial a GFD Investimentos, CSA Project e MO Consultoria. Nas conversas, amiúde, surgiam citações a grandes empreiteiras, seus diretores e alguns nomes, depois confirmados como de parlamentares. Entre eles estavam os petistas André Vargas e Cândido Vacarezza e Luiz Argolo, do Solidariedade. Ainda não era possível entender, porém, como se dava a atuação de Youssef em obras públicas. As dúvidas começaram a ser esclarecidas em 21 de outubro de 2013, quando o nome de Paulo Roberto Costa surgiu em uma conversa entre Youssef e Bonilho. Tempos depois, uma nota fiscal de 250 mil reais referente à compra de uma Land Rover Evoque surgiu em um e-mail monitorado.
Com base nesses indícios e muitos outros coletados no inquérito da Bidone, a Polícia Federal pediu a prisão do doleiro e de 16 comparsas. Todas foram cumpridas em 17 de março. No mesmo pedido, a PF solicitava a Moro o encaminhamento coercitivo de Costa para prestar depoimento no Rio de Janeiro. Em um primeiro momento, os investigadores queriam descobrir por qual motivo a nota da Land Rover estava com o doleiro. Dois dias depois da visita à sede carioca da PF, flagrado ao tentar destruir provas de sua ligação com Youssef, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras foi preso.
Os acontecimentos posteriores às prisões foram amplamente noticiados. O que era para ser apenas mais uma operação contra o mercado paralelo de dólar, com a prisão de Costa alcançou a engrenagem financeira de um cartel integrado por algumas das maiores empreiteiras e responsável por lotear ao menos 59 bilhões de reais em contratos com a estatal brasileira, segundo os investigadores. Costa era mais um dos agentes públicos corrompidos para facilitar a ação do que foi chamado pelos próprios investigados de “bingo” das empreiteiras. Sem saída, o ex-diretor e o doleiro assinaram um acordo de delação premiada no qual entregaram outros agentes públicos integrantes do esquema.
Para 2015, além da Petrobras, estão na mira empreendimentos do setor elétrico, saneamento e fundos de pensão. Da estatal, os alvos serão outras empresas fornecedoras e ex-diretores como Renato Duque, da Área de Serviços, e funcionários ligados ao gerente-executivo e delator Pedro Barusco. Nos bastidores, os investigadores afirmam a necessidade de ao menos mais 15 operações para encerrar a investigação. Ao que parece, a dificuldade será encontrar nomes de filmes para batizá-las.
http://www.jornalggn.com.br/noticia/bidone-casablanca-dolce-vita-as-operacoes-que-estao-na-raiz-da-lava-jato

Por que a Veja é tão imperativa e categórica?


Autor: 

 
Segue texto de minha página "O Labirinto do Desacordo".

Porquê a Veja é tão imperativa, categórica?
Uma análise científica e filosófica da discordância com a revista  mais vendida do Brasil

"Achar que está certo" é fácil, discordar com propriedade é difícil. Muito além do "achismo", do "opininionismo": O Labirinto do Desacordo oferece mais um "fio de Ariadne" para você não se perder nessa popular disputa - "Devemos concordar ou discordar dos artigos da revista mais vendida do Brasil, em especial aqueles que se posicionam de modo imperativo, peremptório, afirmativo, categórico, definitivo - e até mesmo usando um tom de 'indiscutível'?"
"Devo confiar,  em geral, nas proposições de verdade  feitas pelos autores e editores que publicam textos na revista Veja'? Como posso manter uma postura crítica perante à postura 'sempre inabalável' da revista?

A "ciência" também revê suas crenças... mas você crê que "a ciência" - 100% dos cientistas - concordam com essa proposição?

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Antes de entrar na Teoria do Desacordo, vamos contextualizar a discussão numa situação familiar:
"Digamos que você foi no almoço de Natal de 2014 na casa da sua avó; a revista Veja da semana estava displicentemente jogada na mesa de centro da sala. Seu tio-avô fez um comentário sobre a matéria de capa (seja lá qual tenha sido, não importa!), dando o gancho para que outras pessoas expusessem sua opinião:"
Seu primo Saturnino comentou:
"Eu entendo o contexto da matéria, eu até mesmo tenho estudado o mesmo assunto na universidade - inclusive tenho gasto bastante tempo me dedicando ao assunto - MAS tenho um ponto de vista diferente sobre o assunto, e tenho razões para discordar do artigo - aliás, acredito que os objetivos de quem escreveu o texto sejam diferentes dos meus"
- Seu outro primo, Geminiano, comentou:
"Ainda que eu nem tenha lido essa matéria da Veja, e ainda que eu possa pressupor muito bem tudo o que você venha a me dizer sobre seus estudos, eu também tenho uma posição muito clara sobre este tema, muito mais sólida do que você imagina na verdade. Independente do que você pense, eu tenho uma posição inabalável sobre este assunto. E a julgar pela chamada, eu provavelmente vou concordar com a revista"

Saiba TUDO sobre um novo remédio: muitos pesquisadores, médicos e farmacêuticos, concordaram que essa capacidade de ensinar TUDO sobre um tema controverso, para leigos, PARECE MILAGRE
TODA E QUALQUER SEMELHANÇA COM SEU NATAL É MERA COINCIDÊNCIA.
Uma vez que estabelecemos que você e seus primos Saturnino e Geminiano tem garantida a liberdade de avaliar como quiserem a "veracidade" (ou não) da proposta de Veja, com qual dos dois valeria a pena comprometer sua crença - abstratamente falando?
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HIPÓTESE 1: Seus primos podem ter OBJETIVOS diferentes ao atestar (ou negar) a veracidade do artigo da Veja.
(Vamos partir de um princípio "justo", equânime, igualitário; seus primos, no caso, teriam um "background" equivalente, uma preparação equânime para a discussão, um bom conhecimento de causa. Ou seja, AMBOS afirmaram suas posições antagônicas fundamentados em um conhecimento "suficientemente bons".)
Nesta hipótese, seu primo Geminiano pode ter um interesse "material" em validar a veracidade da matéria de Veja. Digamos que ele é um comerciante interessado em vender o remédio que a revista apresenta, em termos de sua "utilidade".
O outro primo, Saturnino, talvez antagonize com este objetivo: ele pode ser um acadêmico que estuda os efeitos colaterais deletérios do remédio, efeitos dos quais o artigo da revista Veja discorda que sejam relevantes, significativos para que se deixe de consumi-lo.

O primo Saturnino teria o objetivo de FIXAR UMA CRENÇA SOCIAL ANTAGÔNICA AO CONSUMO DO HIPOTÉTICO PRODUTO - digamos, um medicamento sem aprovação na ANVISA para o uso em debate.
Portanto, se você deseja ter uma aproximação racional da abordagem de um ou de outro "primo", ou seja, de uma ou outra interpretação de veracidade do artigo de Veja, digamos que seria "útil" colocar sob suspeição qualquer um dos dois que:
- Que desejasse impor sem argumentos uma crença relativa ao artigo - ou produto
 
- Que estivesse abertamente envolvido em um tipo de "doutrina" ou "proselitismo" ou "marketing" relacionado ao produto ou artigo.
Seria igualmente útil, ainda na perspectiva de compreender os objetivos para melhor avaliar se devemos manter ou suspender nossa crença na proposição de verdade:
- Qual a dimensão social do desacordo com o artigo de Veja, ou seja: com quais grupos de interesse, com quais grupos de investigação do problema eu estaria entrando em desacordo?
- Portanto, com quais interesses meu desacordo entraria em conflito?

Entender o OBJETIVO é entender o contexto, a perspectiva do outro
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HIPÓTESE 2: um deles não tem condições iguais e suficientes para avaliar adequadamente a proposição de verdade.
Caso um dos primos careça de:
a) Informação, dados ou evidências
b) Habilidade, formação acadêmica ou interesse no assunto
c) Tempo, condições de pesquisa ou reflexão
Isso se configura numa situação de desacordo ILEGÍTIMA - em oposição ao desacordo "legítimo", quando ambos possuem condições "suficientemente boas" para o debate.

Será que todos os leitores de Veja sabem o suficiente sobre a diplomacia brasileira para poderem julgar adequadamente se concordam ou discordam do "apagão"?

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HIPÓTESE 3: um dos primos apenas mantém uma postura obsessiva, "inabalável", de negação/afirmação da crença.
Parecer um sujeito decidido e de opinião forte é uma estratégia para (tentar) obter um "ganho social".
Em algumas situações, a demonstração de dúvida pode ser encarada como "fraqueza"; nestes casos, a pessoa pondera que, mais importante do que "cooperar por uma aproximação conjunta da verdade", é mais lucrativo que ele simplesmente sustente sua posição de "dominante da verdade" perante seu círculo social.
Por exemplo:
É vantajoso para a revista Veja demonstrar a seus leitores que ela escolhe sempre os melhores especialistas para fundamentar sua matéria, de modo que ela "entregue um valor" de "poupar o esforço" do leitor em julgar se deve ou não concordar com o "expert" - ou seja: caro leitor, pode manter uma confiança inabalável nas minhas afirmações e negações. Você nos paga para facilitarmos seu esforço de decidir como agir, em especial, perante questões complexas, ambíguas.
Ou ao contrário, seria mais vantajoso que ela se colocasse como uma revista que sempre abre uma discussão - que sempre traz diferentes pontos de vista, diferentes visões de mundo, deixando para o leitor o trabalho de julgar em quem ele quer acreditar? Ou mesmo seria de seu interesse explicitar a controvérsia "técnica" que outros experts tem com os "peritos" que ela seleciona para suas páginas?
 

Os estádios da Copa ficaram prontos a tempo... mas a Veja não fez um artigo para reclamar dos matemáticos que fizeram os cálculos errados (ou fez?)

O defensor da postura inabalável (ou "steadfast", em inglês) não se abala. O que acontece é que ele considera um prejuízo - ou um risco - considerar o entendimento do mundo dos outros.  Ainda que ele próprio considere que seu debatedor tenha conhecimento suficiente de causa, no entendimento do debatedor inabalável, é mais favorável (interessa mais) assumir a "não conciliação" nem cooperar por um entendimento mútuo - é mais "barato", menos custoso, assumir que a discordância vem da evidência de que o outro "só pode estar errado".
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E dessa forma, o diálogo com outros leitores da Veja poderá oferecer muito pouco para um leitor crítico de Veja - ou seja, que não parte SEMPRE do princípio que deve concordar com TUDO o que está escrito ali.
A postura steadfast é nefasta para a comunidade, ainda que pareça ser favorável, sob certos pontos de vista, para aquele que mantém a crença inabalável e crê que suas crenças não carecem de revisão.

Não seria mais interessante para a sociedade brasileira manter uma ampla discussão sobre um tema tão crucial?

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As "questões críticas a serem feitas em busca da saída do Labirinto do Desacordo" deveriam ser:
- Leio esta revista para reforçar ou alterar minhas crenças? Estou disposto a alterá-las se julgar necessário, ou seja, se o texto puder me convencer a rever minha crença em determinada proposição de verdade?

- Como posso ter segurança caso decida manter minha crença, ainda que a revista proponha que eu a suspenda?
- Devo mudar minha forma de agir, após tomar conhecimento sobre as proposições de verdade feitas pela revista Veja/ Editora Abril?
- Quais os objetivos desse texto em específico?
- Quais os meios que esta revista dispõe para atingir seus objetivos?

Devo mudar minha crença? Devo mudar minhas decisões?

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Caso essas perguntas tenham lhe soado triviais, naturais, obvias... parabéns. Você tem o hábito de se propor as questões fundamentais do desacordo, consciente ou inconscientemente:
- Devo ou não alterar minhas crenças diante da proposição (V) da Veja? 
PROBLEMA EPISTEMOLÓGICO
- Devo ou não mudar minhas decisões, minha forma de agir, após deliberar sobre a veracidade das proposições da Veja? 
PROBLEMA ÉTICO
- Devo ou não levar em conta os meus objetivos e os objetivos das pessoas com quem estou dialogando para rever crenças e decisões?
PROBLEMA TELEOLÓGICO
 

Creia nisso, faça isso

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A partir daqui, apresentaremos algumas considerações de Daniel Baiardi, colaborador do Labirinto do Desacordo, sobre outras estratégias possíveis para o leitor crítico - de seu artigo “Conciliacionismo e Cooperação: Uma Estratégia Híbrida para o Desacordo”
Quando pensamos nas posturas frente ao desacordo, o cenário ideal seria aquele onde agentes de posse de crenças verdadeiras mantêm sua posição e aqueles de posse de crenças falsas são convencidos.
Contudo, como não sabemos quem está de posse da verdade, é imperativo uma postura ética diante do desacordo, ou seja, uma norma geral a respeito de como uma pessoa crítica deve agir em casos de desacordo.
É necessária uma alternativa além de manter obsessivamente a crença ou perder confiabilidade nela todas as vezes que se deparar com um desacordo.
Baiardi propõe uma visão "contextualista" (ou uma forma de "perspectivismo") e uma "orientação de cooperação epistêmica", ou seja:
Que o "par de pessoas" em desacordo considere o contexto mais amplo do desacordo - a dimensão social do conhecimento - e que evite uma postura inflexível, identificando pares de debatedores abertos para uma cooperação* na investigação da qualidade da crença, e "jogando duro" com pares que estejam inabaláveis em suas posições.
Cooperação no sentido estrito, como estudado por Robert Axelrod em seu "A Evolução da Cooperação".
 

Uma contribuição da Teoria dos Jogos

 
Em outras palavras, "conciliar com conciliadores" e manter a crença perante agentes do tipo"steadfast" - como a Veja.
Alguém que toma para si o método científico, em certas circunstâncias deve conciliar e em outras manter sua crença.
Este tipo de comportamento misto é bem exemplificado por estratégias de interação em "rounds sucessivos", ou seja, quando sabemos que as rodadas de acordo/desacordo irão acontecer muitas vezes ao longo do tempo, usadas em jogos evolucionários, como encontramos na teoria da cooperação de Robert Axelrod.

Vale a pena ler esse livro! É simples, direto, compreensível para leigos e muito profundo

O que devemos retirar por corolário é que conciliar visões com verdadeiros pares epistêmicos (com conhecimento suificientemente equilibrado e objetivos em comum) é de vital importância para os propósitos da comunidade.
Ou viveremos como eremitas ou como párias que, ou se satisfazem com suas visões parciais do todo, ou ainda, com menos caridade, pessoas que não estão dispostas nem a compartilhar suas verdades nem aprender com seus erros.
Com base no que foi dito, a estratégia híbrida prescreve:
- Sempre conciliar com aqueles que partilham nossos objetivos e meios. Dessa forma, sempre conciliar com conciliacionistas, salvo com inferiores epistêmicos ou frente a disparates.
- Se esforçar em conciliar com aqueles com os quais compartilhamos ao menos os objetivos, mas não os meios.
- Nunca conciliar com um steadfast, a não ser que ele seja um superior epistêmico (notoriamente tenha um conhecimento superior sobre a matéria) ou tenha um histórico de conciliação em outras ocasiões.
Neste âmbito, as pessoas devem ser flexíveis: a ideia é assumir o esforço de se colocar na perspectiva do outro, exercer uma empatia. (Vide "Histórias Abertas: Uma Entrevista Com Kiara Terra"). Afinal, se procedemos racionalmente ao fixar nossas crenças, não seria razoável dar crédito a outros agentes que não usam dos mesmos critérios para fixar crenças.
Mas isso não é o bastante para uma defesa do conciliacionismo combinado com a cooperação.
O fator decisivo para tornar o conciliacionismo uma posição mais racional depende da aceitação de uma cláusula especial à qual muitos céticos poderiam se opor, a Tese da Difusão do Acerto (TDA), a qual entende que o acerto é mais difundido que o erro em comunidades especializadas.
(TDA) Dada uma crença V, pertencente a um campo do conhecimento F, estudado por uma comunidade C, geralmente, em C, o acerto sobre V é mais difundido que o erro.
Considerando o acerto como mais difundido que o erro, não é difícil perceber que os conciliacionistas se aproximarão cada vez mais da verdade, sem, contudo, aproximar- se demais da certeza sobre crenças controversas.
* * * * * *
Por fim, esta cooperação deve evitar alguns desvios de rumo bastante comuns:
O problema do "Puro Conciliacionista"
Alguém que tente "conciliar-se a priori", ou "conciliar-se excessivamente", pode estar assumindo que a cooperação signifique "aceitar ou tolerar que o outro pense diferente", ou mesmo considerando "minimizar sua crença em respeito ao outro".

Um conciliacionista pode ser alguém que se preocupa com o risco de que o desacordo vire "discórdia, cizânia", uma vez que a multipliciade de pontos de vista pode impedir um consenso.
- Devo conciliar-me "a priori", ou seja, buscar um meio termo independente de quaisquer soluções de validação da "verdade", respeitando sempre a percepção do outro, ainda que equivocada?
- Devo ponderar: qual o melhor equilíbrio entre acordo e desacordo a respeito das        crenças propostas no artigo da Veja?
As duas perguntas acima podem levar a uma "conciliação" improdutiva, ou equivocada; podem ser um sintoma de um erro lógico, conhecido também como "a falácia do meio termo".

O problema do "Relativista"
Um relativista acredita que um mesmo objeto pode ser duas coisas diferentes ao mesmo tempo.
- Devo relativizar a proposição de verdade? Aliás, existe uma "verdade" - a não ser aquela definida pelo objetivo específico de cada debatedor?
Sem dúvida que a diversidade de perspectivas deve ser preservada, mas devemos considerar adimensão social do desacordo. Isso significa que a busca para uma solução "ótima" para o desacordo pode ter tanto um "interesse social", quanto pode ser compartilhada por grupos sociais mais amplos do que o par de debatedores em questão.
 
O problema do "Cético"
Uma outra alternativa seria tomar a posição de um cético frente a questões controversas, onde evidências são escassas - simplesmente propor a suspensão do julgamento.
- Diante do impasse, prefir assumir que não existe uma solução possível - só sei que não sei se a proposição de verdade é válida.
Mais uma vez, esta posição entra em choque com a dimensão social do desacordo na contemporaneidade, quando fica clara nossa dependência de nossos coletivos. O empreendimento científico, exemplo maior da aplicacão da racionalidade, só é possível como empreendimento social - e não pode "se dar ao luxo" de suspender permanentemente o acordo/desacordo.
Como agentes auto interessados que somos, muitas vezes nossos objetivos (o ceticismo, a suspensão do julgamento, no caso) podem entrar em conflito com aqueles da comunidade.
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DISCLAIMER:
Devemos declarar que a página do Labirinto do Desacordo não possui anunciantes e não pretende tê-los. Qual o objetivo desta página, então?

Guarde a pergunta: EM BREVE A RESPONDEREMOS.
Mas faça a mesma para a revista Veja: qual o objetivo desta publicação?
Ou melhor - quais os objetivos destas páginas - esta gratuita, e a outra paga (ainda que repleta de propaganda)?
Qual o objetivo da revista Veja?
Quais os objetivos de cada artigo publicado?
Espero que após ter lido este artigo, possa ter compreendido que a pergunta não é meramente retórica.
http://www.jornalggn.com.br/fora-pauta/por-que-a-veja-e-tao-imperativa-e-categorica