terça-feira, 4 de novembro de 2014

Você, que é igual a mim: aos coxinhas, com carinho

Postado em 04 nov 2014
por : 
coxinhas

Em meio a tantas discussões extremadas, com embates entre classes, cores e credos diferentes, nas quais o “nós” versus “eles” buscam realçar as divergências e afirmar superioridade, vou me dirigir aos iguais.
Você, que é igual a mim (a saber: branco, classe média – média alta talvez – paulistano, escolaridade superior, enfim, pertencente ao 1%), sai com a esposa e dois filhos para comerem uma pizza (uma!), cervejinha e refrigerantes, dificilmente receberá uma conta menor que R$ 170 e nem precisa ser num restaurante da moda.
Sabia você que R$ 170 é o valor médio mensal que recebem os beneficiários do Bolsa Família? Sim, o que você gasta em uma saidinha ordinária é o que uma família recebe de auxílio para um mês inteiro.
Você que é igual a mim, é atendido por garçons, frentistas, faxineiras e demais “serviçais” oriundos do nordeste, região que você tanto quer ver separada por um muro, sabia que o estado de São Paulo é que possui o segundo maior número de beneficiários do Bolsa Família? Já parou para pensar que talvez você não pague tão bem assim seus empregados? Sim, aqueles mesmos que você tanto torce o nariz para registrá-los em carteira.
Você sabia que toda essa “transferência de renda” para o Bolsa Família que tanto lhe agride emocionalmente representa 0,5% do PIB? Tem certeza de que você está “mais pobre” por conta disso?
Você que alega desvio de caráter dos beneficiários ao gerarem mais filhos visando receber “até mil reais” já parou para pensar que só a escola particular de um único filho seu custa bem mais que isso?
Em algum dos meios de comunicação pelos quais você se informa foi noticiado que segundo o Relatório Mundial da Saúde 2013, o Bolsa Família reduziu em 17% o índice de mortalidade infantil e que o programa foi responsável direto pela diminuição de 65% das mortes causadas por desnutrição e por 53% dos óbitos causados por diarreia em crianças menores de cinco anos? Isso não o sensibiliza?
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Você, que enche a boca ao se dizer empreendedor e usa e abusa do clichê que “deve-se ensinar a pescar” ao criticar os programas sociais, já pensou o que seria de seu negócio se não houvesse um outro programa chamado Luz para Todos que levou energia elétrica para 15 milhões de pessoas? Sem poder assistir a comerciais como elas consumiriam os produtos de seu empreendedorismo? Tem certeza de que políticas sociais lhe desfavorecem tanto assim?
Você, que reclama tanto da mão-de-obra desqualificada mas não proporciona um salário que permita a seu funcionário investir em estudos, não vislumbra a qualificação através do Pronatec como algo positivo? Ou seu prazer é passar a vida reclamando e culpando o governo?
Você, que esteve vociferando nas redes sociais e talvez até mesmo tenha ido à avenida Paulista no último sábado demonstrando temor pela democracia e pedindo imprensa livre, o que pensa da perseguição sofrida por jornalistas da “mídia independente” após o último domingo? Aliás, se existe uma tal mídia independente, qual a conclusão sobre a mídia que você consome: em oposição ela é, portanto, dependente? De quem?
Você, que está morrendo de medo de um controle totalitário e acredita que o Marco Civil da internet tenha sido o primeiro passo para tal, sabe que a internet é e continuará livre exatamente em consequência dele? Certeza que sabe do que se trata?
Você, que assiste a TV Globo e a coloca no pedestal da lisura e da verdade, sabia que para evitar pagar impostos pela compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002, a emissora simulou estar fazendo um negócio no exterior? A Receita Federal identificou o envio de R$ 549,4 milhões para essa finalidade. Não sabia? Como já disse Gilberto Gil: procure saber.
Você, que é leitor da Veja, tem conhecimento de que o governo Alckmin comprou e distribuiu 5.200 exemplares da revista nas escolas públicas? E que, somados a outras assinaturas de dois grandes jornais, torra R$ 3,8 milhões da educação com essas aquisições, tudo sem licitação? Essa é a imprensa livre? Independente? Isso não é alinhamento ideológico bolivariano?
Você que, do sofá, tanto criticou as manifestações que interrompiam o trânsito, esteve e apoiou esta que pedia o impeachment de Dilma? E se criticou tanto o vandalismo daquelas, o que pensa sobre Eduardo Bolsonaro estar com uma pistola na cintura enquanto discursava em cima do carro de som e dizer que, se tivesse chance, seu pai teria fuzilado Dilma?
Você, que está tão preocupado com uma possível ditadura comunista e se diz tão liberal, o que pensa sobre a recente derrubada do decreto que instituía o Sistema Nacional de Participação Popular sacramentada pelos deputados “liberais” dos partidos em que você vota? Irá cobrar isso deles? Você não quer participação popular?
Você que, assim como Diogo Mainardi, acredita que o governo faz uso dos programas sociais para arrebanhar votos nas regiões mais pobres, pensa da mesma forma quando governos adotam medidas que lhe favoreçam? Se seu bairro esteve livre do racionamento de água até agora, você se considera um eleitor comprado?
Você que, como eu, é bem nascido, bem criado, viajado, higiênico, que se considera esclarecido e tão bem informado, tem certeza de que procura conhecer os fatos através de mais de uma perspectiva antes de acusar os outros de desinformados e não é um alienado da realidade extra Moema/Jardins/Morumbi?
Você, que é igual a mim, não vê contradição entre seu discurso e suas ações? Nenhuma hipocrisia? Você, que tanto brigou com seus pais quando adolescente, ficaria ofendido de hoje ser classificado como neoconservador (termo por si só contraditório pois, se é neo não pode ser conservador), certo? Você que é igual a mim, não se envergonha?
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Sobre o Autor
Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/voce-que-e-igual-a-mim-aos-coxinhas-com-carinho/

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