domingo, 9 de novembro de 2014

Quem cobriu o prejuízo da "Folha" durante a campanha eleitoral?



Passadas as eleições, o jornal Folha de São Paulo demitiu 25 jornalistas. Os mais famosos foram Eliane Cantanhede e Fernando Rodrigues.

Os motivos seriam corte de custos, para equilibrar as contas. Além de uma redação mais enxuta, jornalistas mais antigos e com salários mais altos seriam repostos por mão-de-obra mais barata.

Mas a crise no jornal é antiga, vem de muito antes das eleições. O problema não é só da Folha. Praticamente todos os grandes jornais impressos tradicionais estão em crise com o crescimento da internet.

Então, tecnicamente, sob a ótica capitalista dos donos do jornalão, os profissionais antigos e mais caros já deveriam ter sido trocados há mais tempo.

Cantanhede sempre foi uma jornalista dublê de cabo eleitoral tucana. Fernando Rodrigues nunca teve o mesmo engajamento mas, experiente e conhecedor dos bastidores de Brasília, poderia vir a encontrar alguma reportagem contra gente da base governista que influísse nas eleições, a tal "bala de prata".

Se foram mantidos até terminar a campanha eleitoral, deve ter havido anúncios para cobrir os custos de mantê-los. Quem patrocinou? O Itaú? A Cemig? A Sabesp? Outros grupos financeiros e empresariais tão engajados em retirar Dilma do Planalto?

Subsídio cruzado?

Em um dos debates com o jornalista Amaury Ribeiro Júnior, por época do lançamento do livro "A Privataria Tucana", de sua autoria, no meio das conversas ele levantou uma pauta que apontava para a suspeita explosiva e indigesta para os jornalões e revistas demotucanas. Ele disse que essa velha mídia tinha anúncios de montadoras de veículos como contrapartida de isenções de impostos dada pelos governadores.

Os governadores tucanos ofereciam vantagens às montadoras para instalarem ou ampliarem em seus estados, mas incluíam no "pacote" um acordo informal: anunciar em determinados jornais e revistas.

Coincidência ou não, há muito tempo há anúncios de primeira página (os mais caros) de fabricantes de carro, tanto na Folha de São Paulo como no Estadão. Carros também são dos poucos anunciantes fiéis que ainda anunciam com frequência na revista Veja, ao lado do banco Itaú.

Obviamente, nenhum jornalão, revista ou TV se interessou  até hoje por essa pauta levantada por Amaury.

Circulação paga vai de mal a pior

A circulação da Folha impressa está empacada há anos. Até 2013 andava abaixo de 300 mil exemplares. E só não sofreu queda mais expressiva porque os governadores tucanos compram assinaturas em massa. Na prática é um subsídio com dinheiro público a jornais com clara linha editorial que favorece as campanhas eleitorais tucanas.

A Folha tentou aumentar suas receitas cobrando assinatura para quem acessa seu conteúdo pela internet (paywall). O resultado foi decepcionante.

Em Maio, diz a Folha que tinha, na média, 342 mil vendidos no país, incluindo as edições impressas e digital. Não divulgou os números em separado. Mas é possível que o jornal impresso tenha caído a vendagem mais ainda. Como a assinatura digital é mais barata, é provável que, mesmo com o pequeno aumento no número de assinantes digital, não tenha aumentado as receitas da empresa.

Como a Folha não divulga ao público a evolução da circulação paga desde maio, é sinal de que os negócios não vão bem, a ponto de ser melhor esconder do que divulgar. Afinal que empresário não gosta de falar para todo mundo quando suas vendas sobem?

Outro problema é que, como assinantes da versão digital são poucos, ao bloquear o acesso gratuito ao conteúdo, a empresa perde receitas de anúncios na internet.

Anúncios sem retorno comercial

Cada vez mais há menos retorno dos anunciantes em jornais impressos, comparado com publicidade em outros meios, sobretudo a internet. Na prática, para a maioria dos antigos anunciantes tradicionais, ou não vale mais a pena anunciar nos jornalões ou, em alguns setores, só vale a pena se o preço do anúncio for muito baixo para equilibrar com o baixo retorno.
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