sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Os tucanos não entenderam o que uniu Lacerda, Chagas Freitas e Brizola


7 de novembro de 2014 | 21:32 Autor: Fernando Brito
guandu
Os cariocas mais antigos – eu ia dizer velhos, mas isso me doeu um tanto – lembram dos tempos de falta d’água na cidade, comuns nos anos 50 e 60, ao ponto de inspirarem  de Vítor Simon e Fernando Martins a fazerem uma bem sucedida marchinha de carnaval:
“Rio de Janeiro/ cidade que nos seduz/ de dia falta água/ de noite falta luz”.
Botei o vídeo lá embaixo, para os que duvidarem que era assim.
Na minha infância, quem tinha banheira enchia quando vinha a água, quem não tinha guardava em baldes ou – mais comuns – nos grandes latões de banha ou gordura de côco (o diet daquela época).
Aí veio a Guanabara e o seu primeiro governador, o reacionaríssimo Carlos Lacerda, a quem os suburbanos como meus pais e avós chamavam  O Corvo, por ter levado Getúlio Vargas à morte.
Lacerda colocou em prática um plano dos anos 50, o de ampliar a pequena estação de tratamento de água e construir uma adutora ligando o longuínquo Rio Guandu, que recebia a transposição de águas do Rio Paraíba do Sul, no outro lado da Serra das Araras, originalmente para gerar energia elétrica, às zonas Norte, Sul e Centro do Rio de Janeiro.
Em meados dos anos 60, ficou pronta, é verdade que com parte dos subúrbios e quase toda a Baixada esquecidas no projeto.
Chagas Freitas, pouco antes da fusão,  recuperou um problema acontecido na obra de Lacerda, que teve um desmoronamento com as enchentes de 1967, e duplicou a capacidade da estação de tratamento. Chagas cuidou disso, mas também esqueceu as favelas, que eram a base, aliás, de sua política de “bicas d’água”, com postos de distribuição para a velha “lata d’água na cabeça”.
Depois dele, Brizola, em seu segundo mandato como Governador (no primeiro ele cuidou de ampliar e solidificar o Sistema Imunana-Laranjal, que tirou Niterói e São Gonçalo da seca e de levar água encanada para as favelas), otimizou a capacidade de tratamento do Guandu com a construção de um segundo túnel de captação de águas no Rio, uma obra pesada, cara e demorada.
Brizola e Lacerda eram arqui-inimigos, alguns graus a mais que eram de Chagas.
Lacerda disse que sua obra daria água à cidade até o “ano 2000″, que era quando a gente colocava alguma coisa que queria dizer num futuro muito distante.
Não chegaria lá, mas os que o sucederam não deixaram “para o ano 2000″ cuidar do abastecimento de água do Rio e fizeram ampliações e melhorias.
O sistema Cantareira é de meados dos anos 70.
Desde Laudo Natel, nenhum governador paulista cuidou de ampliá-lo. Afinal, era de uma grandeza que parecia dispensar estes cuidados.
Mas vinte anos se passaram.
E vieram os governos Covas I, Covas 2, Alckmin I e II, Serra e Alckmin 3, passando agora para o 4.
Outros 20 anos.
E nada.
Escrevo nestes dias de – felizmente – chuva em São Paulo para não parecer agouro.
Homens públicos podem divergir em quase tudo, menos neste dever básico: cuidar das necessidades básicas das pessoas, notadamente nas grandes metrópoles, onde não é possível pegar água na bica.
Não há chuva que dê aos tucanos a remissão deste pecado.
Prometer como solução obras que levam anos e ideias mirabolantes – já foram várias, desde bombardear nuvens e tirar água do mar e até do ar –  depois de 20 anos de desídia soa cruel.
Há de chover em São Paulo, apesar da longa estiagem de preocupação do interesse de seus governantes em prover  aos seus cidadãos o direito essencial à água.

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