terça-feira, 11 de novembro de 2014

Não há dinheiro que pague: o pequeno Roberto Carlos e o grande Robert Plant


Postado em 11 nov 2014
É, bicho
É, bicho

A carreira de Roberto Carlos como garoto propaganda teve um fim patético, mas, eventualmente, previsível. Através de seus advogados, ele exige o pagamento de uma multa de 7,2 milhões de reais pelo rompimento do contrato com o grupo RBS, dono da Friboi. A empresa alega que deve apenas 3,2.
Tentou manter o processo em sigilo, mas o juiz negou. Segundo o Estadão, Roberto receberia 45 milhões no total pela campanha. A rescisão foi unilateral: quem não quis continuar foi a marca de carnes. O JBS teria constatado, através de um instituto de pesquisa, que o público não confia em Roberto.
Ou seja, ele estava, como gostam os publicitários, desvendendo o produto. O comercial em si já era constrangedor, dada a pouca intimidade do cantor, que até então era supostamente vegetariano, com o bife à sua frente.
Na época, o cineasta Fernando Meirelles fez circular a fofoca de que ele não tocou no prato (Meirelles é o mesmo que tentou cooptar o ator Mark Ruffalo para as hostes de Marina Silva, mas esqueceu de avisá-lo que a candidata era evangélica fundamentalista). A briga ainda envolve uma empresa do Reino Unido investigada por sonegação fiscal.
Roberto Carlos paga um preço por ter abandonado sua arte para faturar exclusivamente com o que acha que é sua imagem. É um paradoxo: o negócio é fechado por se tratar de um grande artista. Ocorre que o grande artista não produz arte há décadas. Que tipo de endosso viria de alguém cujo grande momento é aparecer num especial de fim de ano? (Sem contar o desgaste como censor de biografias).
Numa realidade paralela, o episódio poderia servir para Roberto refletir e chegar à conclusão de que o negócio dele é música. Um disco novo, talvez? O último de inéditas foi em 2000. Ocorre que Roberto é, na prática, um aposentado fingindo que ainda gosta de fazer o que o tornou famoso. Quem compraria um carro usado desse homem?
Há um limite para alguém cuja única motivação é ganhar dinheiro por ganhar dinheiro. O caso de Robert Plant é o oposto. De acordo com o Daily Mirror, o ex-vocalista do Led Zeppelin recusou uma oferta de 500 milhões de libras (cerca de 2 bilhões de reais) para se reunir com a antiga banda. Seu relações públicas desmentiu a notícia, mas a aversão de Plant à ideia de tocar com os dois sobreviventes do Led Zeppelin apenas por grana é notória.
Ele já afirmou que não deseja fazer parte de um circo e nem quer estar perto de pessoas que “gostariam de queimar nossas almas”. Ele não é “parte de uma jukebox”.
A última apresentação com John Paul Jones e Jimmy Page foi em 2007, em homenagem ao executivo de gravadora considerado por eles como padrinho. Não descarta que possa vir a aceitar uma reunião. “Mas não é por causa de dinheiro. É porque eu não estou entediado”. Isso o valoriza.
Plant acabou de colocar na praça um bom álbum novo, “Lullaby and… the Ceaseless Roar”. Poderia ficar alguns milhões mais rico com um único show com o que restou do Zeppelin. Mas foge do tédio. O tédio em que Roberto Carlos chafurda e que vendia aos incautos a peso de ouro.

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Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-anao-roberto-carlos-e-o-gigante-robert-plant/

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