sábado, 1 de novembro de 2014

“Curral eleitoral” e “neocoronelismo” em 2014, uma estória mal contada



A comparação dos resultados do 2º turno de 2010 e de 2014 permite verificar que houve, com poucas variações significativas, uma repetição, em 2014, do quadro eleitoral que já havia ocorrido em 2010. Dilma venceu em 2014 em praticamente os mesmos estados em que havia vencido em 2010, enquanto Aécio venceu em 2014 em praticamente os mesmos estados em que Serra havia vencido em 2010. As diferenças expressivas ficaram por conta do fato de Dilma ter ampliado, de maneira nem tão expressiva, sua vantagem nos estados do NE e de Aécio ter ampliado, de maneira mais expressiva, a vantagem do PSDB no estado de São Paulo.
BTCÉSAR - DESEMPENHO DOS CANDIDATOS A PRESIDENTE NOS ESTADOS
O resultado final em 2014, com Dilma Rousseff obtendo 51,54% e Aécio Neves 48,36% dos votos válidos, o que implica uma diferença pró-Dilma de apenas 3,28 pontos percentuais, deve-se não apenas ao aumento da votação de Dilma no NE, mas, sobretudo ao aumento da votação do PSDB/Aécio em São Paulo.
Enquanto todo o NE detém 26,41% do eleitorado nacional, São Paulo sozinho detém 22,41%. Como Aécio obteve uma vantagem de 6.807.906 votos no estado de São Paulo, que representam exatos 6,84% dos votos válidos do país, fica fácil perceber que foi naquele estado que ele conseguiuo aumento percentual que o aproximou de Dilma Rousseff.
BTCESAR - DESEMPENHO DE DILMA E AÉCIO NOS ESTADOS E DF
Dilma venceu as eleições de 2010 obtendo 56,04% e José Serra as perdeu obtendo 43,98% do total de votos válidos, o que implicou em uma diferença pró-Dilma de exatos 12,11 pontos percentuais. Serra obteve uma vantagem de 1.846.028 votos no estado de São Paulo, que representaram exatos 1,85% dos votos válidos do país.
Caso, em 2010, José Serra tivesse assegurado no estado de São Paulo a mesma vantagem percentual de 6,84% que Aécio Neves assegurou em 2014, ele teria obtido 48,97% dos votos válidos em todo o país e, inclusive, ultrapassado a votação obtida em 2014 por Aécio Neves, tornando a margem de vantagem de Dilma ainda menor.
Não foi, portanto, apenas o NE que “deu a vitória a Dilma”, mas foi também a votação conquistada por Aécio em São Paulo que fez com que ele se aproximasse de Dilma, no cômputo total, alcançando índice bastante superior ao conquistado por José Serra quatro anos atrás.
A ideia do “curral eleitoral” ou do “neocoronelismo” responsável pela vitória nas eleições presidenciais, brandida pelos “analistas” tucanos, precisa ser revista ou, se insistirem em mantê-la, precisam reformulá-la, considerando São Paulo como “curral eleitoral” tucano e não apenas o NE como “curral eleitoral” petista. A questão, como já apontei em outro artigo, é social e não geográfica.
Ainda que não seja possível desagregar os votos e verificar a renda e a escolaridade dos eleitores de Dilma Rousseff e de Aécio Neves, pois o voto é secreto, as pesquisas de intenção de voto realizadas anteriormente à eleição nos permitem concluir que os eleitores se dividiram, em todas as regiões do país, segundo suas posições sociais em favor de um ou outro candidato. É muito provável que, em São Paulo, onde Aécio venceu por larga margem, inclusive em muitas áreas de periferia da capital do estado, muitos eleitores de famílias de ex-imigrantes nordestinos, que superaram suas condições de pobreza nos últimos anos e que não haviam votado em José Serra em 2010, tenham votado em Aécio Neves em 2014.
Os resultados eleitorais deixam, entre outras tantas, três questões para o debate: 1) Por que a oposição ao governo Dilma, em 2014, aponta tanto o Nordeste como “curral eleitoral” garantidor da vitória, se esta região já havia se posicionado politicamente da mesma forma em 2010, sem causar a mesma celeuma? 2) O que se passou no “curral do estado de São Paulo” (usando-se a mesma incorreta expressão) nas eleições de 2010, quando o apoio a Serra foi bem menor do que o apoio a Aécio em 2014? 3) Por que os “analistas” que identificam o “curral eleitoral no NE” nunca identificaram o “curral eleitoral paulista”?
Algumas respostas podem ser buscadas na tentativa de alguns “analistas” de deslegitimar a vitória de Dilma Rousseff, encontrando motivos para prolongar a disputa em um ilegal e ilegítimo “3º Turno”. A agitação e o posicionamento que a bancada tucana já começa a assumir no Congresso Nacional e a estridência com que a grande imprensa a repercute, parecem, desde já, confirmar esta tese.
Na verdade, não há “curral eleitoral” algum, nem, muito menos, “divisão eleitoral” regional no país. Os votos distribuíram-se de modo bastante equilibrado, como pode ser confirmado pelo mapa elaborado pelo historiador econômico Thomas Conti, que leva em conta a votação obtida por cada um dos dois candidatos em cada estado e a coloca em uma escala ponderada de cores e não em uma escala binária, como fez boa parte dos “analistas”.
BTCESAR - COMO É
Benedito Tadeu César - Cientista político, prof. UFRGS, diretor do InPrO - Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais
Publicado originalmente no site Sul21 http://www.sul21.com.br/jornal/curral-eleitoral-e-neocoronelismo-em-2014-uma-estoria-mal-contada/
http://www.jornalggn.com.br/blog/tadeu-cesar/%E2%80%9Ccurral-eleitoral%E2%80%9D-e-%E2%80%9Cneocoronelismo%E2%80%9D-em-2014-uma-estoria-mal-contada

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